Xamanismo - percepções de um livre pensador

O Universo se manifesta de diferentes maneiras para o xamã, viagens no tempo e visitas aos mundos espirituais integram a mesma realidade da vida cotidiana. A dimensão humana e a espiritual estão profundamente interligadas, pulsando no eterno fluxo da vida. A visão do xamã está na pluralidade de encontros com seres que habitam mitologias, na cosmologia que explica o funcionamento do Universo, na antropologia das culturas e na psicologia das emoções. São múltiplas vozes que ultrapassam os limites geográficos dos saberes e encontram representação nos mais diversos povos.
O xamanismo é a espiritualidade primordial que chega até nossos dias e reflete a essência da criação, nos permitindo ter acesso a uma grande variedade de pensamentos que traduzem e unificam modernas ideologias e saberes tradicionais. Tudo está interligado, o espírito do xamã compreende a natureza como uma grande família universal. Todos os seres viventes são obras-primas da Essência Universal, continuamente escritas e reescritas pela natureza. O xamanismo não trata de um conjunto de ritos específicos, muito menos há um mestre superior ou um livro sagrado, suas práticas dependem da região onde acontecem e desenvolvem-se por aptidões intuitivas que buscam a cura, portanto, o xamã não é um santo, muito menos um profeta. Ele é o intermediário entre a dimensão humana e a espiritual simplesmente porque as reconhece como unidade, pois a conexão com o sagrado está permanentemente ativa.
O xamanismo se concentra nos ritmos circadianos, nos ciclos da natureza, nas polaridades eletromagnéticas que traduzem princípios masculinos e femininos, no nascimento e morte dos seres, no contato pessoal com as energias da terra, do sol, da lua e das estrelas. O xamã é aquele que passou pela noite escura da alma narrada pelo poeta e místico João da Cruz, contemporâneo de Teresa D’Ávila, a religiosa que acreditava na busca por um Deus dentro de si e dos outros. Depois de vencer a solidão e as doenças, o xamã se torna o curador ferido, como o centauro Quíron golpeado pela flecha de Hércules e transformado em constelação por Zeus. A expansão da consciência é uma das práticas espirituais mais antigas da humanidade e base do xamanismo. É o êxtase narrado por Mircea Eliade, o Nirvana, o Samadhi, o estado alfa, a consciência cósmica, ou o Nagual, como fala Castañeda. Por meio desses estados, o xamã aprende a sentir e a ouvir os mistérios mais profundos que permitem a interpretação do sagrado em seu próprio coração.
Nos rituais xamânicos, diferentemente do que apontam as grandes religiões, que definem uma vida eterna fora da terra, o espaço sagrado é este em que vivemos, somos filhos da Mãe Terra e parte de algo maior, um microcosmo que não está isolado da Essência Universal. Ao viver cada momento como sagrado, reconhecemos que estamos todos interligados e podemos fazer escolhas que permitem mudanças em nosso mundo. Apesar de comumente estarem associadas aos povos indígenas, as práticas xamânicas não são propriedade de nenhum povo. Seu conhecimento está disponível para todo aquele que ouvir o chamado, é uma escola de mistérios que precisa ser honrada por meio de ações responsáveis. O xamanismo só pode ser conhecido se experimentado, é uma forma de sensibilização de teor religioso, apesar de não ser uma religião. Todos os seres vivos contribuem igualitariamente para o equilíbrio da vida, pois a busca pelo autoconhecimento traz a cura para o homem e, consequentemente, para os seres que estão ao seu redor.
A arte nos dias atuais é uma forma de linguagem xamânica capaz de manipular símbolos e criar mudanças de consciência. Os xamãs do mundo contemporâneo também são os artistas que se comunicam com planos sutis e apresentam às pessoas o resultado de visões que alcançam os mistérios do Universo. Para o artista não há separação entre razão e emoção. O real e o imaginário convivem em sua arte e são capazes de tocar as emoções mais profundas. A linguagem artística manifesta as percepções do Universo sem a necessidade de classificá-las como ilusão ou realidade. O xamã cura o espírito por meio de cantos, orações e viagens a outros planos; já o artista-xamã fala ao espírito de quem vê sua obra por meio das sensações que causa, elas trazem à consciência a conexão com o Eu Interior.
Por fim, o xamanismo abrange os cultos ancestrais e os modernos, os extensos espaços entre as estrelas e a vastidão interna dos pensamentos. O xamanismo é de todos os homens, de todas as épocas e de todos os lugares, e o xamã é aquele capaz de acessar o oculto e traduzir suas percepções para as pessoas, pois sempre haverá a experiência do sagrado permeando os assombros e os encantamentos diante da imensidão do Universo.

*O xamanismo é uma forma singular de sensibilização espiritual que encontra manifestação em diferentes tempos e lugares. Ele se aproxima do animismo, a semente das religiões, cuja forma de pensar estabelece uma relação de respeito com todos os seres: toda vida é sagrada e emana da mesma substância e dos mesmos elementos presentes em todo o Universo. O xamanismo é usado muitas vezes se referindo ao animismo, uma vez que ele é uma prática presente em culturas de crenças animistas. Nesse sentido, ele se aproxima do monismo espiritualista encontrado no Tao chinês e nos textos hindus que falam sobre a essência bramânica. Aproxima-se do conceito unicista defendido por Giordano Bruno e sua crença na existência de um Deus infinito presente na própria criação, que torna divina toda a natureza. E também encontra reflexos no pensamento do filósofo Spinoza, que acredita haver uma única substância no Universo de onde todas as coisas constituem modificações. Se por um lado o xamanismo, como manifestação de experiências espirituais, aproxima-se do pensamento desses filósofos, ele se distancia do dualismo proposto por Descartes, considerado o fundador da filosofia moderna, que admite a existência de duas entidades independentes na criação: espírito e matéria, corpo e mente. Coração Xamânico caminha no sentido da unidade entre as dimensões humana e espiritual, tratando a integração de suas manifestações como caminho para o autoconhecimento.