Sobre o oráculo Coração Xamânico

Quantos rios cruzaremos até encontrarmos nosso caminho? Um filósofo, também conhecido como Obscuro, dizia que não podemos atravessar o mesmo rio duas vezes. A água corrente sob nossos pés segue seu curso, contorna pedras, transforma-se em cachoeiras, deságua no mar, evapora, torna-se nuvem, viaja pelos céus com o vento, condensa-se, cai como chuva, alimenta as nascentes nas montanhas e, uma vez mais, dá forma ao rio. E uma vez mais nos encontramos imersos nas águas que viveram incontáveis experiências e, no entanto, já não são as mesmas, e nós também não. Sentimentos extravasados, emoções afloradas, medos, desejos e alegrias, conquistas, derrotas, sucessos e fracassos contam nossa história e, apesar de nossas imperfeições e limitações, somos capazes de grandiosidades.
Coração Xamânico retrata a apreensão do sentido vivo das pinturas que permitem explorar a sincronicidade dos acontecimentos, tanto internos quanto externos. Por meio de símbolos que reverberam no espaço e no tempo e revelam a interdependência de nossas relações, lançamos luz sobre a escuridão de nossa própria natureza. Coração Xamânico representa o que nos motiva a seguir em frente. Em sua atmosfera onírica, encontramos situações que traduzem sentimentos. Ele é um livro vivo que encerra em si o conhecimento à espera de ser descoberto. Para muitos ele será claro como o dia e, para outros, obscuro como a noite; contudo, seu espírito segue continuamente desvelando-se, camada por camada, diante de nossa aproximação.
Não importa onde nascemos, ou em qual caminho buscamos o autoconhecimento, a visão mítica guia nossos passos, conduz nosso coração desde que deixamos a Árvore da Vida. O ar está em nossos pensamentos, a água nas emoções, a terra em nossas raízes e o fogo em nosso coração representa a fornalha cósmica presente no núcleo das estrelas, onde são gerados os elementos da vida. A união desses aspectos simbólicos faz ecoar dentro de nós o som primordial do Universo e o mundo onírico das experiências xamânicas entra em ressonância com o cosmos. Manifestamos o sagrado que há em nós em ações diárias e não somente no êxtase divino dos rituais. Caminhamos na Espiral Sagrada que nos leva sempre ao início de tudo, com a diferença de estarmos um nível acima do ponto de partida, como o relato dos povos originários que prenuncia o reconhecimento do som primordial no coração dos homens. Por meio dele, nos reencontraremos com a natureza, com as pessoas e com o Universo. Reencontraremos nosso eu sagrado. Talvez seja este, afinal, o sentido do nome escolhido: Coração Xamânico é a condensação das águas de tantas experiências que chovem palavras e cores nas páginas e nas telas que ilustram esta obra.
O conhecimento humano transparece em todas as culturas, diferentes olhares estabelecem pontes que tentam explicar o que se revela nos mitos e crenças que impressionam vidas e criam o caminho do homem sagrado. Joseph Campbell criou pontes ao traduzir o conteúdo imaterial de tantos povos e apresentá-los como Máscaras de Deus, mostrando-nos que diversos aspectos da vida contemporânea precisam ser ritualizados e mitologizados, pois antigos mitos se alinham ao nosso sistema interior de crenças. Câmara Cascudo, em seu livro Geografia dos Mitos Indígenas, nos conta como os jesuítas criaram uma visão simplificada de Tupã que atendia aos anseios de assemelhá-lo ao Deus cristão, fazendo o mesmo com Jurupari ao compará-lo ao demônio. Por outro lado, Leon Cadogan, ao compilar e traduzir o Ayvu Rapyta, o canto da criação dos guaranis, abriu espaço para um entendimento mais amplo sobre a visão cosmológica de povos nativos e sua integração com a natureza, que é a base do xamanismo aqui abordado.
Por fim, Coração Xamânico é uma atitude interior de gratidão, a expressão mais clara das percepções reconhecidas em diferentes estados de consciência, uma metáfora para os arquétipos de nossas vidas. Por meio dele reconhecemos nossas experiências individuais e as aproximamos do mistério da vida, concebemos a força e a energia que sustentam o mundo e nos identificamos com o Universo. Ele é imagem, palavra, vibração, cores e formas que manifestam as inúmeras dimensões de uma única existência ou as muitas vidas de um só alguém. A eternidade de todas essas vidas não pertence à natureza do tempo, ela é o agora, o presente que não repete o passado e tampouco cria expectativas pelo futuro, uma dimensão de consciência do ser, a eternidade de nosso Eu Interior.
Que esta obra siga seu caminho beneficiando aqueles que ouvirem seu chamado.