Palavras e raízes

A relação sagrada com a Mãe Terra nasce das raízes que nos permitem sentir e estar em profunda conexão com todos os seres vivos. Eles nos acolheram quando aqui chegamos e desde então acompanham e ensinam nossas almas imortais e peregrinas da luz. A Mãe Terra representa uma das faces da Grande Deusa, que nos envolve com a esperança de que nossas conexões com a natureza se mantenham em constante movimento. A estagnação não faz parte das leis do Universo, portanto, não nos acomodemos com a falsa ilusão de que esta vida é tudo o que existe. Retiremos os véus de nossos olhos para enxergarmos a imensidão da criação e, então, sentirmos em nossos corações a centelha divina do amor universal. É preciso apenas uma faísca dessa centelha para acender a fornalha cósmica de nossa divindade.
Na Mãe Terra, tudo pulsa no ritmo da respiração do Grande Espírito. O planeta em que vivemos passou por inúmeras mudanças para evoluir conosco. Cada espécie de vida possui uma pulsação própria e suas vibrações podem ser tão lentas quanto longínquas órbitas estelares ou tão aceleradas quanto a velocidade dos fótons que atravessam a energia escura do Universo para trazer vislumbres da imensidão da qual fazemos parte. A obra da criação acontece a todo instante, renova-se em si mesma, e ainda que estejamos alheios ao que nos cerca, somos parte ativa de tudo o que existe.
Os ramos evolutivos trazem as explicações para as mutações de cada espécie, mudanças capazes de desenvolver raízes mais profundas e garantir a contínua caminhada. A essência que animou os corpos inicialmente embrutecidos veio diretamente do cosmos e os elementos que formaram esses corpos foram forjados no coração de supernovas que explodiram há bilhões de anos. Nossa existência baseada no elemento carbono é apenas uma entre tantas possibilidades que se desenrolam na imensa teia da criação. Somos recipientes sagrados ancorados por um instante no coração da Mãe que nos recebeu, nutriu e permitiu que nos multiplicássemos. O fato de muitos de nós desconhecerem os segredos da Essência Divina não nos impede de vivenciá-la.
A repetição dos fenômenos da natureza nos permitiu perceber a passagem do tempo, as estrelas falavam e nós ouvíamos, não estávamos mais sozinhos. O dia e a noite ganharam novos significados e, pouco a pouco, estendemos o conhecimento revelado, passando a reconhecer ciclos cada vez mais longos. Sucederam-se as estações e, com elas, os períodos de recolhimento, o tempo de plantar e colher, os solstícios e equinócios. Nos primeiros anos de nossa história, o mundo se apresentava como nossa casa e para cada astro e força da natureza, um deus nascia; infelizmente, em nossos simples pensamentos, permitimos que nascessem com as divindades a necessidade de agradá-las. Sacrifícios de sangue foram feitos, para tristeza da Mãe Terra, que acompanhava com pesar nossa luta contra as sombras da ignorância.
Os primeiros deuses não passavam de projeções de medos de nossas sociedades primitivas, eles eram equivalentes aos sentimentos ainda não lapidados que aprendíamos a desenvolver. Com o tempo, sociedades matriarcais organizaram-se em torno de grandes deusas que nos revelaram sua face para que corajosamente afastássemos os véus que desciam sobre nossos olhos. O desejo de conquista e a falta de entendimento do que acontecia levou muitos de nós a criarem novos deuses, e assim a guerra e a dominação deram forma a divindades implacáveis que exigiam ainda mais sangue. Não há que se olhar para o passado de forma julgadora, evoluímos e escrevemos a própria história nos livros universais. Há quem diga que muito foi escrito, no entanto, nossa aventura como seres conscientes ocupa apenas algumas páginas na história de bilhões de anos do Universo que conhecemos. Os ciclos se repetem e velhos hábitos às vezes retornam, modos limitados de interpretar o mundo são tropeços na longa caminhada das inúmeras vidas que nos foram confiadas. Muitos são os caminhos que conduzem ao mesmo destino, vivemos a verdade de nossas escolhas, portanto, a cada um cabe um tempo único no entendimento dos mistérios da criação.
Brilhantes mentes nasceram em diferentes épocas para funcionarem como bússolas morais que apontam para a complexa organização da vida. Personalidades mana, plenas de carisma, auxiliam-nos, transformam em palavras as impressões que a Essência Universal deixou em nossos corações. Novas dimensões são reconhecidas em teorias que vislumbram breves relances da espiritualidade. Tudo vive e respira em constante fluxo. O movimento que nos impulsiona para a luz é o autoconhecimento e não palavras antigas encerradas em seu próprio tempo. Deuses e orixás, mestres ascensos, potestades, anjos e serafins, jinns e consciências externas ganham novas cores nas mitologias modernas e revivem na fé a eles devotada, entretanto, perdem seu significado quando exprimem o desejo de se tornarem verdades absolutas sob domínio de determinada cultura. Nenhuma palavra é absoluta, o conhecimento precisa ser permanentemente reinterpretado à luz dos novos saberes, para que nos libertemos de pensamentos que permanecem estagnados. O movimento faz parte das leis universais e para que reconheçamos nosso lugar na criação, precisamos estar atentos aos avanços da espiritualidade, das artes, das ciências e de todas as formas de saberes.
Formamos laços familiares sobre a superfície do planeta, mas não nos enganemos acreditando que eles são os únicos existentes. A família cósmica é maior do que podemos imaginar. No Universo, os laços são formados por afinidades e não pelo líquido que corre em nossas veias. O sangue é o veículo da força vital que anima nossos corpos, porém ele é um pequenino traço dos laços universais. Em certas crenças, tendemos a imaginar que as sucessões de existências com as quais somos presenteados repetem-se continuamente em torno de um minúsculo círculo familiar, quando não em torno de uma única pessoa, acreditando dessa forma que o amor pode ser acondicionado em um simples invólucro. O laço de amor que nos envolve em uma vida não será desfeito, entretanto ele não se repetirá. Assim como o Universo observável é apenas um ponto entre outros universos, as vidas terrenas são inúmeras, como inúmeras são as essências que vibram em afinidade com cada um de nós. Criamos laços eternos dos quais os laços terrenos são meras sombras. Um reencontro sobre a Mãe Terra está além de explicações superficiais e só é possível quando abrimos os olhos para o mistério da criação e entendemos que tal encontro não está ligado a uma forma de expiação, e sim a uma escolha consciente de união para somarmos forças e auxiliarmos outros na caminhada em direção à evolução.
Muitas vidas estão em cada um de nós. O passado repete-se a todo instante até o momento em que finalmente ouvimos a voz de nosso divino Eu Interior. Em nossas vivências no planeta Terra estão as ferramentas que necessitamos para avançar. Expressemo-nos livremente e exercitemos a crença que melhor nos representar. Respeito às tradições não significa imobilidade. Podemos dar voz à crença que escolhermos e encontrarmos conforto na presença de uma grande deusa, de um deus pai ou na forma de muitos deuses, de espíritos guardiães, anjos da guarda, animais de poder, ou na repetição de mantras e sutras. Entretanto, tenhamos em mente que tais formas de nos comunicarmos com a Essência Universal dizem respeito às raízes que escolhemos para apresentarmos nossas crenças ao mundo. Existem muitas outras formas além daquelas que conhecemos, inclusive modos de viver o divino que não estão ligados às raízes aqui desenvolvidas.
Minhas palavras dizem respeito a uma visão entre infinitas possibilidades que se configuram a cada geração, pois somos criadores e criaturas de nossas próprias vidas.